Afetividade na vida consagrada: vocação, vínculo e saúde emocional
08/02/2026     saúde mental    Vinícius Schumaher

Afetividade na vida consagrada: vocação, vínculo e saúde emocional

Somos seres do vínculo. Todo ser humano, se não é amado desde o primeiro instante de vida, adoece profundamente — e, em situações extremas, pode até morrer. Antes mesmo de sermos alimentados, higienizados ou protegidos do frio e dos perigos, necessitamos que alguém nos olhe com um amor que se compadece. Essa verdade antropológica e psicológica atravessa toda a vida humana — inclusive a vida presbiteral e a vida consagrada.

É nessa dinâmica que todos nós somos — ou ao menos deveríamos ser — gerados, cuidados e inseridos desde cedo: a dinâmica do amor; a dinâmica do “eu te vejo”, do “eu sinto com você”, do “eu te acolho”, do “está tudo bem expressarmos nossas emoções e sentimentos”. Nesse caminho, aprendemos a dar nome e voz ao que sentimos e nos constituímos como sujeitos afetivos. A afetividade nada mais é do que a maneira como nos relacionamos emocionalmente conosco mesmos, com o outro e com o mundo. Sem ela, também na vida religiosa, tornamo-nos como plantas sem seiva: secos, estéreis, sem vida.

Nos últimos tempos, em minha prática clínica, tenho acolhido muitos presbíteros, padres e pessoas de vida consagrada que atravessam profundas crises existenciais e vocacionais. Em grande parte dos casos, essas crises estão diretamente ligadas à dificuldade — ou mesmo à impossibilidade — de se relacionarem afetivamente consigo mesmos e com os outros. Quando a afetividade adoece, o mundo perde suas cores, e a vocação passa a ser vivida como peso, não como sentido.

Em algum ponto desse percurso, construiu-se — ou foi embutida por vias institucionais — a ideia de que uma vida celibatária deveria ser marcada pelo engessamento afetivo ou até pela ausência de sentimentos e emoções. Essa compreensão distorcida do celibato tem produzido sérios impactos na saúde emocional de padres e religiosos. O quadro se agrava quando chegam ao consultório olhares e corações exaustos pelo peso constante de julgamentos moralistas e, muitas vezes, farisaicos.

Se o padre sorri demais, julga-se. Se acolhe com ternura, julga-se. Se constrói vínculos de amizade, julga-se. Se ousa dizer “você é importante para mim”, julga-se. O resultado desse processo é o adoecimento da afetividade na vida consagrada. Presbíteros e religiosos veem suas humanidades sendo lentamente assaltadas pela imposição de um modo de viver a vocação que, em vez de humanizar, desumaniza, ferindo aquilo que há de mais sagrado em nós: a capacidade de amar e de nos deixarmos amar.

Estabelecer vínculos afetivos é condição vital. Uma vocação saudável não teme olhar nos olhos do outro e dizer, com verdade: “eu te vejo” — e, ao mesmo tempo, permitir ser visto. Não existe saúde vocacional sem saúde emocional.

A vida consagrada se constrói a partir de relações humanas reais. Isso implica sentir: consigo mesmo e com o outro. Quando um padre ou uma religiosa cancela suas emoções por medo do julgamento, o risco de adoecimento psíquico aumenta significativamente. E quando o sujeito adoece, sua vocação também adoece.

Vocacionados que se permitem construir uma afetividade saudável compreendem que viemos e nascemos de uma fonte de Amor. E sabem que toda vida, quando vivida de forma íntegra, anseia por retornar a esse mesmo Amor.

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