A máquina responde. Mas ela pode nos encontrar? Psicoterapia e o outro de carne e osso na era da inteligência artificial
24/08/2026     saúde mental    Vinicius Schumaher

A máquina responde. Mas ela pode nos encontrar? Psicoterapia e o outro de carne e osso na era da inteligência artificial

São duas da manhã. Depois de um dia atravessado por cobranças, notificações e tarefas que pareciam se multiplicar enquanto eram cumpridas, alguém abre uma janela de conversa no celular e escreve: “Eu não aguento mais”. Em poucos segundos, recebe uma resposta organizada, acolhedora, talvez até delicada. Não precisou marcar horário, pagar uma consulta, suportar o silêncio de outra pessoa nem correr o risco de se sentir julgado.

É difícil não compreender o fascínio. Em uma sociedade que nos acostumou a resolver quase tudo por meio de uma tela, por que o sofrimento psíquico permaneceria fora da lógica da disponibilidade imediata? Se a inteligência artificial escreve, pesquisa, planeja, resume e decide conosco, parece quase natural pedir que ela também nos escute. O problema começa quando confundimos uma conversa que produz alívio com um processo psicoterapêutico e quando a promessa de uma escuta sem espera passa a nos afastar justamente daquilo que mais falta ao nosso tempo: um encontro humano no qual não seja necessário funcionar o tempo todo.

Minha proposta de reflexão nesse artigo é simples, embora não seja confortável: a inteligência artificial pode ser um recurso útil de apoio, mas não substitui a psicoterapia porque psicoterapia não é apenas receber boas respostas. É viver uma experiência de alteridade, vínculo e responsabilidade diante de um outro real. Um outro que não foi programado para estar sempre disponível, que não existe para confirmar tudo o que pensamos e que, justamente por não ser uma extensão de nós mesmos, pode nos ajudar a continuar existindo de um modo diferente.

 

O cansaço que deseja uma resposta imediata

Byung-Chul Han descreveu a passagem de uma sociedade organizada sobretudo pela proibição para uma sociedade orientada pelo desempenho. Já não é necessário que alguém nos ordene produzir sem cessar. Nós mesmos incorporamos a cobrança, transformamo-nos em gestores de nossa própria vida e passamos a experimentar qualquer limite como insuficiência pessoal. O sujeito contemporâneo trabalha, aperfeiçoa-se, monitora-se e, quando adoece, ainda se culpa por não ter administrado melhor o próprio cansaço. Hartmut Rosa, ao analisar a aceleração social, mostra que a velocidade deixou de ser apenas uma característica das máquinas e se tornou uma forma de organizar a existência. Economizamos tempo com a tecnologia e, paradoxalmente, sentimos que temos cada vez menos tempo. Há sempre mais mensagens, mais metas, mais conteúdo, mais decisões e mais versões de nós mesmos a serem atualizadas.

Nesse cenário, até o cuidado psíquico corre o risco de ser convertido em tarefa de produtividade: regular a ansiedade rapidamente, superar o luto, eliminar o sintoma, melhorar a performance, voltar a produzir. Queremos uma técnica para dormir, cinco passos para estabelecer limites, uma explicação definitiva para o que sentimos, como educar os filhos com mais facilidade, como voltar a sentir tesão na parceira(o),  qual religião combina mais com meu perfil. 56A angústia passa a ser tratada como falha operacional. Mas a vida psíquica não funciona na velocidade de um mecanismo de busca.

Freud já indicava, em Recordar, repetir e elaborar, que aquilo que não pôde ser simbolizado tende a retornar na repetição. Elaborar não é compreender intelectualmente uma explicação correta e seguir adiante. É atravessar resistências, reencontrar afetos, reconhecer modos de relação e construir novas possibilidades ao longo do tempo. Há experiências que não cedem à pressa porque foram inscritas muito antes de termos palavras para nomeá-las. A inteligência artificial aparece, então, como a ferramenta perfeita para uma sociedade cansada de esperar. Ela não dorme, não se atrasa, não tira férias e responde no instante exato em que é convocada. Seu apelo não nasce apenas de ingenuidade tecnológica. Nasce também de necessidades reais: solidão, vergonha, dificuldade de acesso a profissionais, custo do tratamento e medo de revelar a própria fragilidade.

Uma pesquisa de Elizabeth Stade e colaboradores, publicada em 2026 com dados coletados em 2024, encontrou uso de grandes modelos de linguagem para questões de saúde mental em 24% de uma amostra on-line de adultos norte-americanos. Os próprios autores alertam que o desenho da amostra pode superestimar a prevalência na população geral, mas o dado continua expressivo. Entre as razões mais citadas estavam conveniência, disponibilidade em tempo real e acessibilidade financeira. Muitos participantes buscavam apoio emocional; outros usavam a tecnologia para aprender estratégias psicológicas ou complementar uma terapia já existente. Por isso, ridicularizar quem conversa com uma IA sobre o próprio sofrimento seria não compreender o problema. A pergunta mais séria não é “como alguém pode fazer terapia com uma máquina?”, mas: o que uma sociedade exausta e solitária espera encontrar quando pede a um sistema que ocupe o lugar de um terapeuta?

 

Uma promessa real e seus limites

Seria intelectualmente desonesto afirmar que essas ferramentas não podem ajudar. Uma revisão sistemática e metanálise publicada por Qiyang Zhang e colaboradores reuniu 14 ensaios clínicos randomizados e encontrou, em média, um efeito pequeno na redução de problemas de saúde mental. Ao mesmo tempo, o intervalo de predição foi muito amplo, havia risco de viés moderado e o número de estudos ainda era limitado. Também há resultados promissores com sistemas construídos especificamente para intervenções em saúde mental. Um ensaio clínico com o Therabot, desenvolvido e supervisionado por pesquisadores, encontrou redução de sintomas depressivos, ansiosos e relacionados a transtornos alimentares quando comparado a uma lista de espera. É uma descoberta relevante. Porém, não demonstra que um chatbot genérico seja equivalente a uma psicoterapia conduzida por profissional qualificado, nem que um sistema autônomo seja seguro para qualquer pessoa ou situação clínica. O controle por lista de espera, e não por um tratamento ativo, também limita o alcance da comparação.

A distinção decisiva talvez seja esta: uma tecnologia pode produzir efeitos terapêuticos sem, por isso, constituir uma psicoterapia.  Música, leitura, oração, exercício físico, amizade e escrita também podem aliviar sofrimento e favorecer transformações. Não chamamos todos esses recursos de terapia. O problema não está em reconhecer que uma conversa com IA possa organizar pensamentos, oferecer psicoeducação ou acalmar alguém em determinada noite. Está em atribuir à máquina uma competência clínica e uma responsabilidade que ela não possui.

 

O que acontece entre duas pessoas

Uma inteligência artificial produz linguagem que pode “soar empática”; e soar não é a mesma coisa de ser. Ela reconhece padrões, ajusta o tom, fórmula perguntas e oferece respostas plausíveis a partir de grandes volumes de dados. Ainda assim, não é afetada pela história que escuta. Não se inquieta com um silêncio, não leva uma pergunta para a supervisão, não assume responsabilidade ética por uma intervenção e não recorda como uma pessoa que foi transformada pelo encontro com outra. Mesmo quando um sistema armazena informações, memória de dados não é memória vivida.

Psicoterapia é mais do que troca de conteúdo. Algo acontece entre duas pessoas: na maneira como o paciente chega, hesita, desvia o olhar, tenta agradar, teme decepcionar, testa o vínculo, silencia ou repete com o terapeuta aquilo que viveu em outras relações. E algo acontece também na capacidade do profissional de acolher sem simplesmente concordar, sustentar limites sem abandonar, reconhecer um erro e reparar uma ruptura.

A pesquisa oferece um dado importante. Uma metanálise de Christoph Flückiger e colaboradores, com 295 estudos independentes e mais de 30 mil pacientes, encontrou uma associação consistente entre a qualidade da aliança terapêutica e os resultados da psicoterapia, em diferentes abordagens, países e perfis de pacientes. Isso não significa que vínculo, sozinho, explique toda mudança clínica. Significa que a relação não é uma embalagem dispensável em torno da técnica: ela participa do tratamento.

Na Teoria do Apego, John Bowlby descreveu o terapeuta como alguém capaz de oferecer uma base segura a partir da qual a pessoa pode explorar experiências dolorosas, relações atuais e modelos internos construídos ao longo da vida. A base segura não elimina o medo; torna possível aproximar-se dele sem ser inteiramente dominado. Donald Winnicott formulou outro paradoxo precioso: a capacidade de estar só se desenvolve, inicialmente, na presença de alguém confiável. Antes de suportarmos a própria interioridade, precisamos ter experimentado uma presença que não invade e não desaparece. Talvez seja isso que a psicoterapia preserve de mais radical em nosso tempo: a possibilidade de estar consigo mesmo na presença de um outro.

Martin Buber diferenciou a relação “Eu-Tu” da relação “Eu-Isso”. No encontro “Eu-Tu”, o outro não é apenas um objeto disponível para cumprir uma função; é uma presença que não pode ser inteiramente controlada ou reduzida ao meu uso. A inteligência artificial, por mais sofisticada que seja, permanece uma tecnologia feita para responder a solicitações. O terapeuta, ao contrário, comparece como alguém separado de mim. Sua alteridade introduz limite, surpresa e diferença.

Isso pode ser desconfortável. E é justamente por isso que pode ser transformador. Um bom terapeuta não confirma automaticamente todas as narrativas do paciente, tampouco o confronta por vaidade. Ele ajuda a distinguir percepção, fantasia, defesa, memória, desejo e repetição. Suporta não saber depressa. Tolera ser provisoriamente mal compreendido. Observa não apenas o que é dito, mas o modo como determinada história passa a existir naquele vínculo. A máquina pode simular concordância, cautela ou confronto; contudo, não há do outro lado um sujeito implicado na relação e responsável por aquilo que faz com a vulnerabilidade recebida.

 

Quando acolhimento vira confirmação

Uma das qualidades mais sedutoras dos chatbots é a sensação de não julgamento. Para quem viveu humilhação, rejeição ou abandono, poder falar sem encontrar sobrancelhas erguidas ou impaciência pode trazer alívio real. Mas uma escuta incapaz de julgar não é necessariamente uma escuta capaz de discernir.

Sistemas de linguagem podem apresentar informações falsas, reproduzir vieses, responder de forma excessivamente concordante ou não reconhecer adequadamente situações graves. Uma revisão de escopo recém-publicada, que reuniu 119 trabalhos sobre possíveis danos à saúde mental, identificou preocupações com alucinações do sistema, respostas bajuladoras ou excessivamente confirmatórias, vieses, segurança de dados e manejo inadequado de quadros de alto risco. Estudos baseados em vinhetas encontraram respostas inconsistentes, incompletas ou potencialmente nocivas em comparação com padrões clínicos. A Organização Mundial da Saúde também recomenda cautela, transparência, proteção da autonomia, privacidade e responsabilização no uso de modelos generativos em saúde. Esses riscos se tornam especialmente relevantes quando há ideação suicida, violência, abuso, psicose, mania, transtornos alimentares, trauma intenso ou decisões que exigem avaliação clínica. Uma resposta verbalmente gentil pode ser inadequada. Em saúde mental, parecer acolhedor e agir com responsabilidade não são a mesma coisa.

Há ainda uma questão mais silenciosa. Se recorremos sempre a uma presença programada para minimizar fricção, podemos transformar a tecnologia em instrumento de evitação: evitamos a espera, a vergonha, a dependência, o conflito, a possibilidade de frustrar ou ser frustrado. Recebemos uma experiência de disponibilidade quase total — justamente o tipo de relação que nenhuma relação humana saudável consegue oferecer.

A psicoterapia não promete disponibilidade ilimitada. Ela oferece presença confiável dentro de limites. E limites, quando não são punitivos, também cuidam. Não se trata de defender um passado sem tecnologia.

Falar em “outro de carne e osso” não significa afirmar que toda psicoterapia precise ocorrer no mesmo espaço físico. Uma psicoterapia on-line continua sendo um encontro humano: há uma pessoa do outro lado da tela, com corpo, história, formação, limites, responsabilidade ética e capacidade de ser afetada pelo vínculo. A mediação tecnológica modifica a experiência, mas não elimina necessariamente a alteridade.

Também não significa idealizar psicólogos. Terapeutas falham, podem ser insensíveis, cometer erros técnicos e produzir danos. A diferença é que uma profissão regulamentada dispõe de formação, enquadre, supervisão, dever de confidencialidade, critérios de encaminhamento e instâncias de responsabilização. A resposta ética para as falhas humanas é qualificar o cuidado e ampliar a proteção do paciente — não entregar a vulnerabilidade a sistemas opacos apenas porque respondem com fluência.

Tampouco precisamos escolher entre humanidade e tecnologia. A IA pode auxiliar na psicoeducação, na organização de perguntas para uma sessão, no registro de humor, na preparação de materiais, em exercícios estruturados entre encontros e na ampliação de acesso a intervenções de baixa intensidade, desde que existam critérios de segurança, proteção de dados e supervisão humana adequada. O lugar mais promissor da tecnologia talvez não seja o de substituir o terapeuta, mas o de apoiar pessoas e profissionais sem apagar a relação que sustenta o cuidado.

 

Alguns caminhos para não terceirizarmos a própria existência

O primeiro caminho é aprender a nomear corretamente aquilo que estamos fazendo. Conversar com uma IA pode ser útil; não é automaticamente psicoterapia. Informação não é diagnóstico. Alívio não é elaboração. Sensação de acolhimento não equivale a responsabilidade clínica. Em situações de risco ou sofrimento persistente, a orientação de um profissional humano não deve ser adiada em nome da conveniência. O segundo é abandonar a vergonha e incluir esse tema no consultório. Psicólogos precisam perguntar, com curiosidade e sem ironia, se seus pacientes recorrem a chatbots, o que buscam neles e como se sentem depois. O conteúdo dessas conversas pode revelar necessidades importantes: medo de incomodar, dificuldade de confiar, busca compulsiva por certeza, solidão entre as sessões ou desejo de uma relação sem conflito. Em vez de competir com a máquina, o terapeuta pode ajudar o paciente a pensar sobre o lugar que ela passou a ocupar.

O terceiro caminho é estabelecer fronteiras concretas. Não inserir dados pessoais identificáveis, documentos clínicos ou informações sensíveis sem compreender como serão armazenados e utilizados. Não delegar à IA decisões sobre medicação, risco, diagnóstico ou interrupção de tratamento. Preferir ferramentas avaliadas para finalidades específicas e, quando utilizadas como complemento clínico, fazê-lo com consentimento e supervisão. Mas há um caminho coletivo que não pode ser esquecido. Criticar a “terapia com IA” sem enfrentar o preço, a desigualdade e a escassez de cuidado humano seria um moralismo confortável. Precisamos ampliar serviços públicos, clínicas-escola, grupos terapêuticos, modalidades on-line, redes de encaminhamento e modelos de cuidado acessíveis. Muitas pessoas não escolhem a máquina porque desprezam relações humanas; escolhem porque foi a única presença disponível naquela noite.

Por fim, talvez seja necessário defender espaços nos quais a vida não seja tratada como projeto de otimização. A psicoterapia não deveria prometer transformar rapidamente uma pessoa cansada em alguém capaz de suportar mais exploração. Às vezes, cuidar é interrogar a exigência, devolver dignidade ao limite e permitir que o sofrimento deixe de ser vivido como fracasso de desempenho.

O psicólogo não precisa vencer a inteligência artificial na velocidade. Essa disputa já estaria perdida e, sobretudo, seria irrelevante. Seu trabalho é oferecer algo de outra natureza: uma presença ética que saiba escutar o que se repete, suportar o silêncio, reconhecer a singularidade e permanecer quando não há solução imediata.

Em uma época fascinada por respostas instantâneas, a psicoterapia pode continuar sendo o lugar onde alguém não é reduzido a um problema que precisa ser resolvido.

A máquina pode responder em segundos. Mas, quando a nossa vida já não couber em resposta alguma, haverá um outro de carne e osso disposto a permanecer conosco para que possamos continuar existindo?

 

Referências

Bowlby, J. (1988). A Secure Base: Parent-Child Attachment and Healthy Human Development. Basic Books.

Buber, M. (1923/1970). *I and Thou*. Charles Scribner’s Sons.

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Flückiger, C., Del Re, A. C., Wampold, B. E., & Horvath, A. O. (2018). The alliance in adult psychotherapy: A meta-analytic synthesis. *Psychotherapy, 55*(4), 316–340. https://doi.org/10.1037/pst0000172

Freud, S. (1914). Recordar, repetir e elaborar. In *Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud* (Vol. XII).

 Han, B.-C. (2015). Sociedade do cansaço. Vozes.

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Winnicott, D. W. (1958). The capacity to be alone. *The International Journal of Psycho-Analysis, 39*, 416–420.

Zhang, Q., Zhang, R., Xiong, Y., Sui, Y., Tong, C., & Lin, F.-H. (2025). Generative AI mental health chatbots as therapeutic tools: Systematic review and meta-analysis of their role in reducing mental health issues. *Journal of Medical Internet Research, 27*, e78238. https://doi.org/10.2196/78238

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